
Fernanda Barcellos Serralta – Psicóloga, Psicoterapeuta Psicodinâmica, Dra. em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS)
Você já sentiu que, por mais que tente, acaba sempre caindo nos mesmos padrões de relacionamento? Que as discussões se repetem, as frustrações são as mesmas e parece que você está preso em um ciclo? Para pessoas que vivem com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), essas dificuldades nos relacionamentos são uma parte central de suas vidas e a psicoterapia pode ajudar a mudar esse cenário.
O TPB, também conhecido como Transtorno de Personalidade Limítrofe, é caracterizado por uma visão muito instável de si mesmo, sentimentos crônicos de vazio, medo intenso de ser abandonado, e dificuldades em controlar as emoções e a impulsividade. Relacionar-se, para quem tem TPB, pode ser um desafio enorme, pois é difícil saber em quem confiar, levando a repetições de relacionamentos problemáticos ou abusivos, e até ao isolamento.
Em 2023 nosso grupo de pesquisa publicou um estudo cujo objetivo foi entender melhor esses padrões de relacionamento e como a psicoterapia psicodinâmica – um tipo de terapia que explora as emoções e as experiências passadas – pode ajudar a modificá-los ao longo do tempo. O estudo, vinculado ao projeto de Mestrado de Flavia Ciane Assmann Castro foi orientado por mim e contou com a colaboração de Luan Paris Feijó, Betina Capobianco Strassburger e Aline Alvares Bittencourt* . Este artigo apresenta os principais achados e reflexões advindas da pesquisa, caracterizada como um estudo de caso sistemático no qual aplicamos procedimentos de observação rigorosos e confiáveis para examinar o que acontece dentro da sessão psicoterapêutica. Neste estudo, estávamos particularmente interessados em examinar, a partir das narrativas interpessoais da paciente, quais os padrões disfuncionais de relacionamento que ela apresentava e como esses padrões se modificaram com a terapia.
Conheça Mariana: uma história de transformação na terapia
Nossa pesquisa acompanhou de perto a jornada de uma paciente, que chamamos de Mariana, durante cinco anos de psicoterapia psicodinâmica. Quando Mariana iniciou o tratamento aos 19 anos, ela estava em um momento de grande sofrimento. Relatava que estava se automutilando em momentos de raiva e angústia, tinha pensamentos suicidas e se sentia sem vontade de fazer nada, até as coisas mais básicas como tomar banho ou comer. Ela se incomodava por não ter controle sobre si mesma e tinha medo de “explodir” a qualquer momento.
Mariana foi diagnosticada com TPB e sua terapia se focou em reduzir os sintomas e promover uma mudança em sua forma de funcionar, ajudando-a a integrar diferentes partes de si mesma e de como via os outros.
Como estudamos a mudança: o “mapa” dos conflitos relacionais
Para entender as mudanças de Mariana, utilizamos uma ferramenta chamada Tema Central de Conflito nos Relacionamentos (CCRT). Pense no CCRT como um “mapa” dos padrões de relacionamento de uma pessoa. Ele nos ajuda a identificar o que a pessoa mais deseja nos relacionamentos (D), como ela percebe as respostas dos outros (RO) e como ela mesma reage a essas respostas (RS).
Para isso, nossos pesquisadores, que foram treinados para usar a ferramenta e não sabiam de qual período do tratamento eram as sessões, analisaram cuidadosamente as gravações e transcrições de várias sessões de Mariana ao longo dos cinco anos de terapia. Eles procuraram por “episódios de relacionamento” – momentos em que Mariana falava sobre suas interações reais ou imaginadas com outras pessoas, como amigos, familiares ou namorados.
O que descobrimos: mudanças profundas, mas desejos que persistem
Os resultados do estudo foram muito reveladores. Identificamos mais de cem episódios de relacionamento de Mariana ao longo dos anos. A seguir, os principais achados:
1. Do passado ao presente: No início da terapia, Mariana falava muito sobre experiências passadas em seus relacionamentos. Com o tempo, ela começou a abordar cada vez mais os episódios que aconteciam no presente, o que é um sinal importante de progresso, pois indica que ela estava lidando com as questões atuais e as repetições do passado na terapia.
2. Quem está no centro do conflito?: No começo, a mãe de Mariana estava no centro de suas narrativas de conflito, mas gradualmente, a figura do namorado assumiu esse papel. Isso nos mostrou que Mariana estava reproduzindo padrões de relacionamento semelhantes com ele aos que tinha com seus cuidadores na infância.
3. O desejo persistente: Algo muito interessante que observamos foi que o desejo principal de Mariana nos relacionamentos se manteve praticamente o mesmo ao longo de todo o tratamento: “ser amada e compreendida”. Esse desejo, inclusive, aumentou sua presença nas falas dela com o passar dos anos.
◦ No início, Mariana também expressava um forte desejo de “opor-se, ferir e controlar os outros”, que era uma forma de lidar com seus conflitos, mas esse desejo desapareceu no segundo ano de terapia.
4. A Grande Mudança: Como Mariana reagia e via os outros: Embora o desejo central de Mariana tenha permanecido, a forma como ela percebia as respostas dos outros e como ela mesma reagia (as “respostas do self”) mudou significativamente.
◦ No início, Mariana via os outros frequentemente como pessoas que a “rejeitavam e se opunham” a ela. Ela se sentia constantemente “desapontada e deprimida” e não conseguia identificar nenhuma resposta positiva de si mesma nos relacionamentos.
◦ Com o avanço da terapia, embora a percepção de que os outros a rejeitavam continuasse presente, Mariana começou a enxergar que os outros também “compreendiam” e “ajudavam”.
◦ Mais importante, as respostas positivas de si mesma começaram a aparecer no final do primeiro ano de terapia e aumentaram ao longo do tempo. A insatisfação de Mariana nos relacionamentos diminuiu, e ela passou a ter uma percepção mais positiva de suas interações. Isso mostra que ela desenvolveu maior flexibilidade para lidar com os outros e passou a percebê-los de forma mais positiva.
O significado da mudança: uma nova forma de se relacionar
O fato de o desejo central de Mariana ter permanecido o mesmo não significa que a terapia não funcionou. Pelo contrário! Os estudos mostram que é comum que as pessoas mantenham seus desejos principais, mas que a verdadeira mudança aconteça na forma como elas reagem e interagem.
Para Mariana, a terapia com sua terapeuta se tornou um novo modelo de interação. Ao experimentar um relacionamento terapêutico seguro e consistente, ela pôde revisar e elaborar seus padrões interpessoais disfuncionais, deixando de lado defesas imaturas e respostas de confronto. Ela não parou de ter conflitos, mas eles se tornaram menos dominantes. Ela conseguiu ver uma diminuição nas respostas negativas, tanto dela quanto dos outros, em troca de uma percepção mais positiva. Essa melhora indica uma maior capacidade de Mariana de controlar suas reações e de ver os objetos (pessoas) de uma forma mais integrada.
Conclusão: A terapia transforma o “como”
Este estudo de caso indica que a psicoterapia psicodinâmica é efetiva em promover mudanças significativas nos padrões de relacionamento de pacientes com TPB. Mesmo que o “desejo mais profundo” da pessoa não se altere, a terapia permite uma evolução fundamental no “como” a pessoa se relaciona – em suas respostas e na sua percepção dos outros.
*Referência (artigo original):
Castro, F. C. A., Feijo, L. P., Strassburger, B. C., Bittencourt, A. Álvares, & Serralta, F. B. (2023). Mudança nos Conflitos Interpessoais de uma Paciente Borderline em Psicoterapia Psicodinâmica. Quaderns De Psicologia, 25(1), e1805.