O que a história com nossos pais tem a ver com a forma como nos ligamos ao terapeuta?

Fernanda Barcellos Serralta – Psicóloga, Psicoterapeuta Psicodinâmica, Dra. em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS)

Por que algumas pessoas conseguem confiar e se engajar facilmente na psicoterapia, enquanto outras sentem dificuldade em estabelecer esse vínculo logo no início do tratamento? Essa pergunta, que há muito tempo intriga clínicos e pesquisadores, foi o ponto de partida de um estudo realizado por nós (Lima & Serralta, 2017) com pacientes adultos em psicoterapia psicanalítica. A pesquisa buscou entender como as experiências de vinculação parental — ou seja, o modo como fomos cuidados por nossos pais na infância e adolescência — influenciam a forma como construímos a aliança terapêutica e até mesmo como lidamos com o próprio sofrimento emocional.

O que o estudo investigou

A aliança terapêutica é considerada um dos principais fatores que explicam o sucesso da psicoterapia. Ela envolve três dimensões interligadas: o vínculo emocional entre paciente e terapeuta, o acordo sobre as tarefas ou procedimentos da terapia e o consenso em torno dos objetivos do tratamento. Uma boa aliança não depende apenas da técnica do terapeuta — ela também reflete as capacidades relacionais que cada um dos participantes (paciente e terapeuta) desenvolveu ao longo da vida.

Com base nisso, a pesquisa de Lima e Serralta (2017) investigou como a qualidade das relações parentais se relaciona com a força da aliança terapêutica e com o nível de sofrimento psicológico de pacientes que estavam iniciando psicoterapia psicanalítica. Participaram do estudo 57 adultos (a maioria mulheres) que estavam entre a quarta e quinta sessão de terapia, momento em que a relação terapêutica ainda está em formação.

Os pacientes responderam a três instrumentos do tipo questionário de autoresposta:

  • O Working Alliance Inventory (WAI), que mede a qualidade da aliança terapêutica;
  • O Parental Bonding Instrument (PBI), que avalia a percepção sobre o cuidado e o controle dos pais até os 16 anos;
  • E o Brief Symptom Inventory (BSI), que mede a intensidade dos sintomas emocionais e comportamentais.

O que foi encontrado

Os resultados mostraram que a maioria dos pacientes já apresentava uma boa aliança terapêutica com seus terapeutas — um indicador positivo para o início do tratamento. Os sintomas mais frequentes eram de natureza obsessiva, depressiva e interpessoal.

Mas o dado mais revelador foi este: quanto maior o cuidado percebido da mãe, mais forte a aliança terapêutica. O cuidado materno esteve positivamente associado a todas as dimensões da aliança (vínculo, tarefas e objetivos). Por outro lado, o controle excessivo da mãe — caracterizado por superproteção ou vigilância — teve uma relação negativa com o acordo sobre os objetivos terapêuticos.

Pacientes que descreveram suas mães como afetuosas e disponíveis (“Cuidado Ótimo”) apresentaram alianças mais sólidas e mais facilidade em definir objetivos comuns com o terapeuta, quando comparados àqueles que relataram mães frias e controladoras (“Controle sem Afeto”).

Já em relação aos pais, não houve correlação significativa entre cuidado e aliança, mas o controle paterno mostrou-se associado a maior sofrimento psíquico e a sintomas como ansiedade, hostilidade e depressão.

O que isso significa na prática clínica

Esses achados reforçam o quanto a história relacional de cada pessoa acompanha o paciente na terapia, influenciando suas expectativas e modos de se vincular. Pessoas que tiveram experiências precoces de cuidado tendem a confiar mais facilmente e se engajar na relação terapêutica. Já quem cresceu sob vínculos frios ou controladores pode encontrar mais dificuldade em estabelecer objetivos comuns, experimentar dependência, medo de errar ou resistência ao processo.

O estudo mostra que a aliança terapêutica é mais do que um acordo de trabalho: é também um espelho das experiências de apego vividas ao longo da vida. Por isso, compreender a forma como o paciente se relaciona, e como sua história familiar molda essa capacidade, é fundamental para o sucesso da psicoterapia.

Um olhar sobre a transformação possível

A psicoterapia psicanalítica oferece justamente esse espaço de reencontro com os vínculos. Na relação com o terapeuta, o paciente tem a chance de reviver, compreender e ressignificar modelos relacionais antigos — transformando modos de confiar, cooperar e lidar com a própria autonomia.

Talvez seja essa a principal mensagem deste estudo: os primeiros vínculos não determinam o futuro, mas eles deixam marcas que podem ser revisadas e integradas na experiência terapêutica. A qualidade da aliança que se constrói na terapia pode se tornar o ponto de partida para novas formas de se relacionar — mais seguras, maduras e autênticas.

Referência

Lima, C. P., & Serralta, F. B. (2017). Aliança terapêutica, vinculação parental e sintomatologia de pacientes adultos que iniciam psicoterapia. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 17(3), 1181–1199.

Sou psicoterapeuta psicodinâmica de adultos e adolescentes há 30 anos. 

Tenho ampla experiência no atendimento de problemas emocionais e de relacionamento, tanto em psicoterapia breve como de longo prazo. 

Realizei formação em psicoterapia psicanalítica no Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP-RS). 

Sou Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), e Doutora em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS). 

Há decadas, além da prática clínica, atuo também como professora e pesquisadora em psicoterapia. 

Fui uma das pioneiras no estudo da psicoterapia on-line no Brasil. 

Como terapeuta, minha prática é ajustada a cada paciente, sustentanda em evidências científicas e culturalmente sensível.