O Passado que não Passa: Como o Trauma Infantil Ecoa na Vida Adulta

Fernanda Barcellos Serralta – Psicóloga, Psicoterapeuta Psicodinâmica, Dra. em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS)

É possível deixar o passado para trás? Será que os eventos difíceis vividos na infância realmente desaparecem com o tempo, como se nunca tivessem acontecido? Ou será que ficam guardados — silenciosos, mas ativos — moldando a forma como sentimos, pensamos e nos relacionamos?

Essas perguntas inquietaram muitas gerações de clínicos e pesquisadores. Hoje, estudos mostram que o sofrimento psíquico de adultos frequentemente encontra raízes profundas em vivências precoces. Um desses estudos foi realizado com 201 pacientes adultos em psicoterapia, que participaram de uma pesquisa conduzida por Waikamp e Barcellos Serralta (2018). O objetivo foi investigar as repercussões de experiências traumáticas na infância sobre o funcionamento psicológico na vida adulta.

Por que investigar o passado de quem sofre hoje?

Muitos adultos procuram psicoterapia por questões como ansiedade, depressão, sensação de vazio, instabilidade emocional ou dificuldades nos relacionamentos. Embora esses sintomas possam ter múltiplas causas, a prática clínica mostra que uma parcela importante dos pacientes viveu experiências precoces de negligência, abandono, abuso ou outros traumas emocionais. Isso levanta a hipótese de que eventos vividos nos primeiros anos de vida deixam marcas que podem perdurar, mesmo quando não há uma lembrança clara ou consciente deles.

Como foi feito o estudo

A pesquisa teve caráter quantitativo e contou com 201 pacientes adultos em psicoterapia, atendidos em uma clínica-escola universitária. Para investigar a associação entre experiências traumáticas na infância e sofrimento psíquico atual, foram aplicados dois instrumentos padronizados:

  • Childhood Trauma Questionnaire – CTQ, que avalia cinco tipos de trauma infantil: negligência emocional, negligência física, abuso emocional, abuso físico e abuso sexual;
  • Brief Symptom Inventory – BSI, que investiga a intensidade dos sintomas atuais em nove dimensões psicopatológicas, incluindo depressão, ansiedade, hostilidade, queixas somáticas e sensibilidade interpessoal.

As respostas a esses instrumentos foram analisadas estatisticamente para examinar a presença de traumas infantis e sua frequência em relação à intensidade do sofrimento psicológico atual nos participantes.

O que foi descoberto: traumas infantis estão associados com o sofrimento do adulto

Os resultados revelaram que a presença de traumas na infância esteve fortemente associada a maiores níveis de sofrimento psíquico na vida adulta. Chama a atenção que a maior parte dos pacientes relatou em algum grau vivências traumáticas na infância. A negligência emocional foi a situação mais relatada, seguida do abuso emocional. Entre os principais achados:

  • A maior parte dos pacientes em psicoterapia (95%) relatou ocorrência de situações traumáticas na infância.
  • Negligência emocional e abuso emocional, foram relatados por 88% dos pacientes.
  • Foram encontrados índices bastante elevados de abuso físico (77,8%) e negligência física (65%), e abuso sexual (46%).
  • De modo geral, quanto mais traumas relatados, maior foi o índice de sofrimento atual registrado, sugerindo um efeito cumulativo dos eventos adversos da infância.
  • Esses dados confirmam que o sofrimento vivenciado na infância pode reverberar na vida adulta em forma de sintomas psicológicos intensos e duradouros. As marcas do trauma não desaparecem com o tempo — elas persistem na forma como as pessoas percebem a si mesmas, sentem seus afetos e se relacionam com os outros.

O que isso significa para a psicoterapia?

Esses achados reforçam a importância de uma escuta clínica atenta à história de vida dos pacientes, especialmente às experiências de vulnerabilidade e abandono emocional na infância. Violências psicológicas são menos evidentes que violências físicas, mas seus efeitos são muito relevantes e não devem ser negligenciados. A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para que essas vivências sejam reconhecidas, compreendidas e elaboradas. Esse processo é essencial para a construção de uma narrativa pessoal mais coerente, compassiva e integradora.

Mais do que aliviar sintomas, a psicoterapia psicodinâmica possibilita a reconstrução de vínculos internos — consigo mesmo e com os outros — que foram danificados por experiências precoces de negligência, violência ou desamparo.

Além disso, o estudo aponta para a importância de políticas públicas voltadas à proteção física e emocional das crianças. Embora mais sutis que a violência física, traumas como o abuso emocional e a negligência afetiva são ainda mais prevalentes e deixam cicatrizes profundas e duradouras, que frequentemente passam despercebidas.

Por que isso importa?

Falar sobre trauma infantil ainda é tabu. Muitos adultos minimizam ou negam a dor vivida na infância, por vergonha, culpa ou por terem aprendido que “o que passou, passou”. Este estudo contribui para validar uma experiência subjetiva frequentemente silenciada: a de que aquilo que nos feriu na infância pode continuar influenciando nossas emoções e relações, mesmo sem lembranças conscientes ou explicações racionais.

Reconhecer essas raízes não é sobre culpar os pais, mas sim sobre compreender a própria história de vida e abrir espaço para transformações profundas. A memória emocional da infância está viva no corpo, nos afetos e nos modos de se relacionar — e pode ser transformada quando encontra acolhimento, linguagem e elaboração.

Referência

Waikamp, V., & Barcellos Serralta, F. (2018). Repercussões do trauma na infância na psicopatologia da vida adulta. Ciencias Psicológicas12(1), 137–144. https://doi.org/10.22235/cp.v12i1.1603

Sou psicoterapeuta psicodinâmica de adultos e adolescentes há 30 anos. 

Tenho ampla experiência no atendimento de problemas emocionais e de relacionamento, tanto em psicoterapia breve como de longo prazo. 

Realizei formação em psicoterapia psicanalítica no Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP-RS). 

Sou Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), e Doutora em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS). 

Há decadas, além da prática clínica, atuo também como professora e pesquisadora em psicoterapia. 

Fui uma das pioneiras no estudo da psicoterapia on-line no Brasil. 

Como terapeuta, minha prática é ajustada a cada paciente, sustentanda em evidências científicas e culturalmente sensível.