Psicoterapia, Como Acontece essa Mudança?

Fernanda Barcellos Serralta – Psicóloga, Psicoterapeuta Psicodinâmica, Dra. em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS)

A psicoterapia é um processo conhecido por promover mudanças significativas na vida das pessoas. Mas como exatamente essas mudanças acontecem? O que, dentro do processo psicoterapêutico, favorece que alguém sinta, pense e aja de forma diferente? Embora essas perguntas estejam no coração da prática clínica e da pesquisa em psicoterapia, as respostas ainda são desafiadoras.

Para investigar esse enigma, um grupo de pesquisadores brasileiros (Serralta et al. 2016) conduziu um estudo detalhado do processo terapêutico de uma psicoterapia breve real.

O estudo buscou compreender como a mudança ocorre ao longo de um processo de psicoterapia psicodinâmica breve, isto é, uma modalidade focada, de curta duração, voltada à transformação de padrões emocionais e relacionais centrais. Para isso, os pesquisadores analisaram um único caso clínico em profundidade — uma abordagem conhecida como estudo sistemático de caso.

A motivação foi preencher uma lacuna importante: embora saibamos que a psicoterapia é eficaz, ainda é necessário compreender com mais clareza como ela gera mudança. O estudo se baseia na premissa de que, ao acompanhar cuidadosamente um processo psicoterapêutico bem-sucedido, é possível identificar os elementos que catalisam a transformação do paciente.

O caso estudado

A paciente era uma mulher de 48 anos, com ensino médio completo, mãe de três filhos adultos, afastada do trabalho por motivos de saúde e em uso de medicação antidepressiva. Encaminhada por um psiquiatra à clínica-escola, ela buscava ajuda sentindo-se sobrecarregada por obrigações que a impediam de viver a própria vida. O ponto central de sua queixa girava em torno do cuidado com o ex-marido, vítima de um acidente vascular cerebral recente. Embora divorciada, ela se sentia moralmente obrigada a cuidar dele, vivenciando esse compromisso como uma prisão.

Sua fala era marcada por uma mistura de revolta e culpa. Dizia sentir-se como se nunca tivesse tido a chance de “curtir a vida”, mas também não conseguia se afastar do ex-marido, pois o via como “inválido” e temia estar abandonando alguém vulnerável. Esse dilema — entre desejo de autonomia e obrigação moral — tornou-se o foco central da psicoterapia.

A terapeuta, profissional experiente com mais de três décadas de prática clínica, propôs como objetivo terapêutico o equacionamento desse conflito interno. A meta era facilitar a elaboração do sentimento de culpa e da agressividade voltada contra si mesma, de modo a possibilitar à paciente a vivência de maior liberdade e leveza frente às suas escolhas.

A intervenção consistiu em onze sessões individuais de psicoterapia psicodinâmica breve, acompanhadas por duas sessões de seguimento (follow-up) realizadas três e nove meses após o término do tratamento. Todas as sessões foram gravadas e transcritas, o que permitiu uma análise minuciosa dos processos terapêuticos envolvidos.

Diversos instrumentos de avaliação aplicados pré e pós tratamento mostraram que o processo foi bem-sucedido em termos dos sintomas e queixas apresentadas. 

Como o estudo foi feito? O método em foco

Neste estudo, o processo das sessões de psicoterapia foi avaliado com uma ferramenta chamada Psychotherapy Process Q-Set (PQS), adaptada para o Brasil. Esse instrumento foi criado para descrever, de forma sistemática, como a psicoterapia acontece na prática, olhando tanto para o comportamento do paciente, quanto do terapeuta, e também para a interação entre os dois.

O que é o PQS? E como ele funciona?

O PQS é como um “jogo de cartas” com 100 itens descritivos, que incluem, por exemplo: o tipo de conteúdo que o paciente traz; o estilo de atuação do terapeuta; aspectos da relação terapêutica.

Esses itens não usam linguagem teórica ou técnica, o que torna o instrumento útil para diferentes abordagens terapêuticas. A ideia é observar o que acontece na sessão de forma mais objetiva e concreta possível e organizar os cartões de modo a melhor descrever o que caracteriza cada sessão.

Cada sessão é gravada em vídeo e depois transcrita. Dois observadores treinados assistem a sessão e avaliam o quanto cada um dos 100 itens descreve bem (ou não) aquela sessão, em uma escala de 1 a 9. A pontuação é feita em forma de “curva” (com poucos itens nas pontas e mais no meio), respeitando a distribuição normal para facilitar análises estatísticas. Depois, compara-se a concordância entre os avaliadores para garantir que a avaliação seja confiável.

Como foram analisados os dados?

Cada sessão foi avaliada por dois observadores independentes que tiveram bom grau de concordância nas suas avaliações.

Usando a média desses dois avaliadores, os pesquisadores ordenaram os itens do mais ao menos característico e criaram uma narrativa que resume o estilo da psicoterapia. Por fim, eles observaram, com auxílio de procedimentos estatísticos de correlação, quais aspectos da terapeuta, da paciente e da relação foram mudando ao longo das 11 sessões.

O que mudou? Os resultados da transformação

A descrição sistemática do processo realizada com o PQS evidenciou que este se caracterizou por uma relação terapêutica positiva e colaborativa desde o início. A paciente mostrou-se confiante, segura e engajada, trazendo conteúdos significativos às sessões e demonstrando abertura para o trabalho clínico. Não apresentou resistência às intervenções e compreendeu com facilidade as propostas da terapeuta. Esta, por sua vez, manteve uma postura empática, responsiva e acolhedora, oferecendo apoio e incentivo e favorecendo a livre expressão da paciente. As sessões foram marcadas por um diálogo fluido, centrado nas vivências atuais da paciente, especialmente em relação à sua saúde e aos vínculos interpessoais. A paciente expressou sentir-se genuinamente ajudada por esse processo.

As análises estatísticas mostraram que ao longo do tratamento houve uma mudança gradual no estilo técnico da terapeuta. Com o tempo, ela reduziu o uso de interpretações voltadas ao inconsciente e passou a empregar com mais frequência intervenções mais diretivas. Essa mudança pareceu refletir um ajuste clínico à fase do tratamento e às necessidades da paciente, sinalizando a flexibilidade técnica e sensibilidade da terapeuta ao momento terapêutico.

Em paralelo, a paciente foi apresentando mudanças importantes. Demonstrou uma diminuição progressiva na intensidade de afetos negativos, como tristeza, raiva, culpa e vergonha. Sentimentos dolorosos tornaram-se menos frequentes, e ela passou a se mostrar emocionalmente mais estável, animada e esperançosa. Também foi possível notar uma menor necessidade de buscar proximidade com a terapeuta a qualquer custo, o que sugere maior segurança relacional e autonomia emocional. Houve ainda uma redução na tendência de atribuir suas dificuldades a fatores externos, acompanhada por uma atitude mais responsável e ativa diante dos próprios conflitos.

Essas mudanças subjetivas se refletiram também na dinâmica da díade terapêutica. Com o amadurecimento da aliança, os diálogos passaram a incluir com mais frequência temas ligados aos objetivos do tratamento e às expectativas da paciente em relação ao futuro. A exploração dessas questões indicou um fortalecimento do vínculo e da colaboração, elementos centrais para o avanço terapêutico.

De forma geral, o processo foi marcado por avanços significativos. A paciente mostrou-se progressivamente mais fortalecida, com maior capacidade de elaborar suas emoções e de assumir uma posição ativa diante de sua vida. A terapeuta, ao adaptar sua técnica com sensibilidade e presença, contribuiu de maneira importante para o desenvolvimento desse percurso clínico positivo.

Nem sempre é a técnica. Às vezes, é o encontro.

Em psicoterapia psicodinâmica breve, há algo que frequentemente escapa aos manuais técnicos: a delicada arte de afinar o ritmo do tratamento às condições emocionais de quem está à nossa frente. No caso discutido neste estudo, terapeuta e paciente encontraram um modo de caminhar juntas — e foi essa sintonia, mais do que qualquer técnica específica, que parece ter sustentado o processo de mudança.

O vínculo construído se mostrou sólido, ancorado em empatia, escuta ativa e apoio emocional. Curiosamente, as técnicas interpretativas clássicas — tão valorizadas em abordagens psicanalíticas — deram lugar a intervenções mais suaves, porém não menos profundas: perguntas, encorajamento e validação. Em vez de buscar interpretações do inconsciente, a terapeuta apostou em cultivar a confiança, o apoio e a exploração, respeitando o tempo e os recursos da paciente.

Essa escolha, longe de ser uma omissão, foi uma resposta clínica ajustada. A decisão de “dosar” a ansiedade, reduzindo o uso de interpretações e investindo em apoio direto, parece ter favorecido a expressão emocional, a autorreflexão e o bem-estar da paciente ao longo do tratamento.

O estudo mostra algo essencial, mas por vezes negligenciado: fatores comuns — como o vínculo terapêutico, a responsividade do terapeuta, a colaboração do paciente — pesam mais na balança da mudança do que as técnicas isoladas. Não se trata de desprezar o método, mas de reconhecer que sua potência está em como ele é vivido no encontro com o outro.

Essa flexibilidade técnica e sensibilidade relacional não enfraquecem a psicoterapia psicodinâmica — ao contrário, revelam sua força: adaptar-se com precisão e humanidade às necessidades do paciente, sem abandonar sua profundidade.

No fim, o que transforma não é apenas o que o terapeuta faz. É como ele está com o paciente enquanto faz.

Referência

Serralta, F. B., da Cruz Benetti, S. P., Braga, P., Sanchez, L. F., Ruaro, C. K., Araldi, M. O., & Yoshida, E. M. P. (2016). Como ocorre a mudança em psicoterapia? Um estudo empírico do processo de uma psicoterapia breve. Psicologia Clínica, 28(1), 183–200. https://doi.org/10.5935/1678-4670.20160013

Sou psicoterapeuta psicodinâmica de adultos e adolescentes há 30 anos. 

Tenho ampla experiência no atendimento de problemas emocionais e de relacionamento, tanto em psicoterapia breve como de longo prazo. 

Realizei formação em psicoterapia psicanalítica no Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP-RS). 

Sou Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), e Doutora em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS). 

Há decadas, além da prática clínica, atuo também como professora e pesquisadora em psicoterapia. 

Fui uma das pioneiras no estudo da psicoterapia on-line no Brasil. 

Como terapeuta, minha prática é ajustada a cada paciente, sustentanda em evidências científicas e culturalmente sensível.